No dia 11 de fevereiro, celebramos o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de reconhecer o papel fundamental das mulheres na produção científica e incentivar sua participação em todas as áreas do conhecimento. Mais do que uma data simbólica, o dia propõe uma reflexão profunda sobre quem produz ciência, quais vozes são ouvidas e como o conhecimento científico impacta a sociedade.
A ciência influencia decisões políticas, sistemas de saúde, tecnologias, educação e desenvolvimento social. Garantir a presença ativa de mulheres nesses processos é uma questão de equidade, qualidade científica e justiça social. Quando diferentes perspectivas participam da produção do conhecimento, a ciência se torna mais completa, ética e conectada com a realidade.
ONU / UNESCO – Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência
https://www.unesco.org/en/days/women-girls-science
O Brasil apresenta um cenário relativamente positivo quando observamos a presença feminina na pesquisa. Dados indicam que as mulheres representam cerca de 52% dos pesquisadores vinculados a grupos de pesquisa no país, um percentual acima da média mundial. Esse avanço está relacionado ao aumento do acesso feminino ao ensino superior e à pós-graduação nas últimas décadas.
Entretanto, as desigualdades aparecem com mais força nos níveis mais altos da carreira científica. As mulheres ocupam aproximadamente 45,6% das posições de liderança em grupos de pesquisa e apenas cerca de 14% das cadeiras da Academia Brasileira de Ciências, evidenciando a sub-representação feminina em espaços de maior prestígio e reconhecimento institucional.
Na produção científica, embora quase metade dos artigos publicados no Brasil tenham ao menos uma mulher entre as autoras, elas ainda aparecem em menor número como autoras principais em periódicos de alto impacto, especialmente nas áreas de exatas e tecnologia.
Esses dados demonstram que o acesso à ciência não garante, por si só, igualdade de oportunidades. Celebrar o dia 11 de fevereiro é, portanto, um gesto de reconhecimento, mas também de compromisso com a transformação dessas desigualdades.
IPEA – Mulheres na liderança científica
https://www.ipea.gov.br/cts/pt/publicacoes/publicacoes/501
Academia Brasileira de Ciências – Representatividade feminina
https://www.abc.org.br/membro/mulheres-na-ciencia/
Elsevier / CAPES – Gender in research
https://www.elsevier.com/research-intelligence/campaigns/gender-report
Jaqueline Goes de Jesus — biomedicina e vigilância genômica
A biomédica Jaqueline Goes de Jesus coordenou a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no Brasil apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso de COVID-19 no país. O trabalho foi essencial para o monitoramento da pandemia e para a formulação de estratégias de saúde pública.
Sua atuação tornou-se símbolo da ciência brasileira, da importância do financiamento público e da presença feminina — especialmente de mulheres negras — na pesquisa de ponta.
Wikipedia – Jaqueline Goes de Jesus
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jaqueline_Goes_de_Jesus
Elsevier – Perfil e impacto científico
https://www.elsevier.com/connect/jaqueline-goes-protagonism-opens-paths-for-more-women-in-science
A epidemiologista Celina Maria Turchi teve papel central na identificação da relação entre o vírus Zika e os casos de microcefalia em recém-nascidos. Sua pesquisa impactou protocolos de saúde pública no Brasil e no mundo, sendo reconhecida pela revista Nature e pela Time como uma das cientistas mais influentes de sua época.
Nature – Scientists who mattered (2016)
https://www.nature.com/articles/546468a
Wikipedia – Celina Turchi
https://en.wikipedia.org/wiki/Celina_Turchi
A física Márcia Cristina Bernardes Barbosa é referência internacional em estudos sobre as propriedades da água, com aplicações em diferentes áreas da ciência e da engenharia. Além da produção acadêmica, atua fortemente na formulação de políticas científicas e na defesa da equidade de gênero na ciência.
Wikipedia – Márcia Barbosa
https://en.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rcia_Barbosa
Academia Brasileira de Ciências
https://www.abc.org.br/
Conceição Evaristo é uma das intelectuais brasileiras mais importantes das ciências humanas contemporâneas. Doutora em Literatura Comparada, sua produção acadêmica e literária introduziu o conceito de “escrevivência”, amplamente discutido em pesquisas nas áreas de educação, sociologia, literatura e estudos de gênero.
Seus estudos contribuem diretamente para a compreensão das desigualdades raciais, de gênero e de classe no Brasil, sendo referência em universidades nacionais e internacionais. A presença de Conceição Evaristo no campo acadêmico reforça a importância das mulheres negras na produção de conhecimento científico e social.
Currículo Lattes – Conceição Evaristo
http://lattes.cnpq.br
Wikipedia – Conceição Evaristo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Concei%C3%A7%C3%A3o_Evaristo
No campo das ciências humanas, Maria Elice de Brzezinski Prestes é pesquisadora de História e Filosofia da Biologia e Educação em Ciências, coordenando laboratórios que investigam como a ciência pode ser ensinada de forma contextualizada e crítica — uma conexão importante entre ciência e educação.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Elice_de_Brzezinski_Prestes?utm_source=chatgpt.com
A ciência produzida por mulheres transforma não apenas laboratórios, mas a forma como a sociedade identifica e enfrenta problemas. Durante décadas, muitos produtos e políticas foram desenvolvidos sem considerar experiências femininas.
Um exemplo emblemático é o absorvente higiênico, que por muitos anos foi testado com água ou soluções salinas — e não com sangue menstrual — ignorando características reais do corpo feminino. Esse fato tornou-se amplamente citado em estudos sobre desigualdade de gênero e inovação, demonstrando como a ausência de mulheres nos processos de pesquisa compromete a qualidade das soluções desenvolvidas.
Na área da saúde, estudos clínicos historicamente priorizaram corpos masculinos como padrão, o que gerou lacunas no diagnóstico e tratamento de doenças em mulheres. A ampliação da presença feminina na ciência tem sido fundamental para corrigir essas distorções.
Criado por Elas / Estudos sobre inovação e gênero
https://www.criadoporelas.com.br
Nature – Sex bias in clinical research
https://www.nature.com/articles/d41586-019-01250-8
No Colégio Interativa, a ciência é parte central da formação. Todas as nossas alunas participam ou já participaram de projetos de Iniciação Científica, desenvolvendo pesquisas em diferentes áreas do conhecimento.
Esse contato com a pesquisa logo cedo permite que meninas se reconheçam como produtoras de conhecimento, desenvolvam autonomia intelectual e compreendam que a ciência também é um espaço de pertencimento feminino. Ao conhecer trajetórias de pesquisadoras brasileiras, nossas alunas encontram referências reais que fortalecem seus projetos de vida.
Celebrar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência é reconhecer o passado, valorizar o presente e investir no futuro. Tornar visíveis as mulheres que constroem a ciência brasileira — nas exatas, nas humanas, na saúde e na educação — é uma forma concreta de combater desigualdades e ampliar possibilidades.
No Colégio Interativa, acreditamos que meninas que fazem ciência hoje são as mulheres que transformarão o mundo amanhã.